Oceanar
Por fora, sou uma
simples mulher. Por dentro sou uma complexidade de mundos. Brinco com as cores
do vento, danço com as labaredas do fogo, repouso sobre os grãos da terra e
sinto o mundo exterior com as minhas águas.
Os meus dias são habitados por seres
fantásticos e que são ao mesmo tempo comuns. A canção diurna que escuto é o
canto dos pássaros. E à noite, durmo com o doce som do luar. Todos os dias,
desembarcam e embarcam no meu porto todo o tipo de gente. Chegam comerciantes
me vendendo ilusões, piratas roubando os meus tesouros e pessoas boas que me
dão presentes inconscientemente. No meu porto, vivo com mais intensidade o
sentimento de espera. A espera eterna por algo ou alguém que amplie os meus horizontes.
No mais, está tudo pacato no meu ser. O
sol brilha, as plantas nascem outras morrem, as árvores dão frutos, a grama
alimenta o meu pasto, os meus camponeses separam os grãos e fazem as colheitas,
pesco as trutas e ao findar do dia saboreio o meu banquete que nunca é igual. E
assim, sigo experimentando as delícias e os dissabores de ser quem sou.
Tudo em mim segue o seu curso normal.
Claro que as minhas marés tem seus momentos altos e baixos. Mas, como disse sou
uma mulher, um ser humano como outro qualquer.
Até que em um belo dia de céu azul, a
terra estremeceu, o vento parou de soprar por um instante, o sol ficou frio e
as águas mudaram de rumo. Desceu no meu porto um ser híbrido. Híbrido no
sentido de que ele é a soma de um monte de coisas familiares para mim, mas
ainda assim essa soma me era estranha.
Um navegante chegou em minhas águas. A
sua tripulação, sem pedir licença, se instalou nas minhas areias. Tive que abrir mão de poder estar com o meu
mar só para ganhar mais tempo para pensar no que estava acontecendo e em quem
era aquele sujeito.
Fugi. Me escondi nas minhas montanhas.
Orei para o sol e perguntei para as estrelas sobre o que deveria fazer. Sem
resposta, me enterrei perto das primeiras árvores que cresceram no meu mundo.
Quis ficar mais próxima das minhas raízes. Enquanto isso, assisti aquele
navegante desbravando a mim mesma, me conhecendo cada vez mais, fazendo um mapa
detalhado do meu ser.
Mediante a isso, fiquei perdida. Já sem
forças e cansada para pensar, dormi atrás da cortina d’água da minha grande
cachoeira. Acordei com aquela sensação de que estava sendo observada. Levantei
e senti que estava sendo puxada, como um imã sendo atraído pelo magnetismo de
outro maior. E então notei a presença dele. Me afastei, mas ele segurou os meus
pulsos. Baixei a cabeça, mas ele levantou o meu queixo. Até que enfim, nos
olhamos nos olhos... e foi como se ele me atingisse com um raio. Não emitimos
nenhum som, pois tudo o que precisava ser dito foi exposto no nosso olhar.
O navegante-híbrido era um ser
multicolorido. Era belo. O seu ar exalava poesia. Ele tinha fome de inspiração.
No universo dele, arte e beleza se confundiam. Fiquei extasiada com aquela
avalanche extraordinária. Me rendi sem perceber. E foi aí que ele mergulhou
dentro de mim, dentro do meu ser. Conseguiu se ancorar nos meus mares mais
profundos, aqueles mares que até a alma desconhece. O canto dele enfeitiçou as
minhas sereias. Confundiu o encontro do rio com o mar. Quando ele desaguou em
mim, eu simplesmente oceanei.
Já não era mais o meu mundo e o mundo
dele. Era o nosso mundo. Corremos
livres, plantamos novas sementes, escalamos as altas montanhas. Com ele,
aprendi a deliciar-me com as pedras que ficavam no fundo dos meus rios e que
antes eu as enxergava como obstáculos da minha correnteza. Meu horizonte agora
parecia não ter mais fim.
Ele bebeu, se lavou e flutuou em minhas
águas. Mudou as minhas ondas, trovejou nos meus sete mares e esticou a minha
primavera. Passei a celebrar cada gota de chuva e a desenhar com as nuvens. Ele
realinhou os meus planetas e se tornou a nova lua que controla o vai-e-vem das
minhas marés.
Dentro da minha pequena mulher, ele
achou a minha grande menina. Guardou as duas em seu coração e com isso ganhei
asas. Ele trouxe o caos, para no fim instalar a paz.
Continua...

Comentários
Postar um comentário