Amanhecer o pensamento
21 dias. Foi o tempo que durou a minha paz. Em Salvador. Desde que voltei pra casa. Que não sinto ser minha há muito tempo. Assim como minha cidade natal. Eu até gosto daqui e me sinto feliz por ser baiana, e me encanto pela beleza da maresia que corre solta pelo ar, independente da maré. Mas é o passado que conseguiu criar um abismo muito grande entre a contemplação e a emoção. Construir uma ponte para tentar reconectar é um trabalho hercúleo demais, e não sei se tenho forças e nem vontade para isso.
Mais cedo na rádio tocava “O poeta está vivo”. Fui ver o por do Sol, com as reclamações de minha mãe de que “troco o dia pela noite demais”. E admirando a beleza do adeus da luz, percebi que é mais uma beleza que tenho um abismo que me separa pela história e lembranças.
Amo a noite pelo silêncio e o foco que ela dá aos verdadeiros e constantes sons do mundo. Sou da noite, porque é o único momento que tenho para que eu possa estar a sós comigo mesma e meus pensamentos. E meus sonhos. Amo a noite, pois é onde a criatividade liberta acende minha esperança. Em mim e na humanidade. No agora e no presente. Aqui e em todo lugar.
O problema é quando o dia amanhece, e vem a inevitável e complicada convivência com pessoas que você ama, porém que passam como um trator em tudo de bom que foi construído antes do Sol voltar a brilhar. E aí vem a pergunta “como proteger essa pequena chama?”. Que morre e definha de dia e renasce a noite?
Talvez me falte lembrar mais de ser Prometheus e sua razão para acreditar. E ter um propósito que justifique “a vida neste instante”. Ou talvez me falte um lugar para ter de refúgio, não importando se é dia ou noite.
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