Girassol Amarelo
Creio que para começar o meu relato, tenho que
contextualizar. E para contextualizar, terei que começar do princípio. Sim,
como tudo começou, as origens de minha fé e crença.
Eu nasci e
cresci em Salvador-Bahia, a primeira capital do país e também a cidade mais
negra fora do continente africano. Trago essa informação, pois ela é importante
para o entendimento não só de minha história como também a de minha família e
até do povo baiano. Nessa terra onde o dendê prospera, cultura e religião se
misturam a ponto de se confundirem.
Por ter sido a primeira cidade do Brasil,
tem-se nesse caldeirão o cristianismo, as doutrinas africanas e o islamismo
(pelo menos essas três são as mais fortes). Ao lidarmos com os aspectos
religiosos, os enxergamos sob a ótica cultural e não como algo intrínseco às
crenças e convicções dos seres humanos. Para ilustrar melhor, a cultura e
religião africanas são temas de provas de vestibular, no quesito
literatura-língua portuguesa.
Voltando
para minha família e criação, toda a minha família paterna é baiana e em termos
de religião é uma “muqueca”. Tem umbandistas, espíritas, católicos, evangélicos
e gente que é tudo isso ao mesmo tempo (ou quase tudo, pois a maioria de meus
familiares paternos são católicos-espirito-umbandistas). A minha família
paterna tem descendência japonesa, além das doutrinas mencionadas, soma-se
ainda o Budismo. E ah claro, que não posso esquecer minha vó materna que era
ufóloga e rezava para os seres extraterrestres.
Na minha
infância, minha mãe seguia os preceitos budistas, mas não os praticava o que a
fez um valor neutro naquilo que tange o meu berço religioso. Ela nunca me
apresentou nada, nunca me incentivou a nada e também nunca me reprimiu de nada.
Fazendo as contas, como só temos um pai e uma mãe, já dá para adivinhar quem
foi que me ensinou e me apresentou a tudo: meu pai!
Só que tem
um detalhe muito importante: meu pai também é uma muqueca! Ele tem um coração
maravilhoso e foi o homem que me ensinou a rezar e o primeiro a me falar de
Deus. Mas meu pai bebe do espiritismo, do catolicismo e por vezes da Umbanda.
Meu pai me
ensinou o Pai-Nosso, a Ave-Maria e a oração de Santo-Anjo. Me recordo dele me
pondo de joelhos ao pé da cama, com as mãozinhas juntas e rezando comigo antes
de dormir toda a noite, até quando eu já sabia orar tudo sozinha. Lembro-me bem
também dele tocando no violão para mim, e cantando, a oração de São Francisco
de Assis (que por sinal é uma das minhas orações preferidas). Não íamos à missa
todos os domingos como faz meu vô – o pai dele, mas de vez em quando ele me
levava à Igreja e fazíamos a leitura do evangelho kardecista.
Agradeço a
meu pai, que mesmo me ensinando um pouco de cada doutrina e por vezes me
deixando confusa com os conceitos, sempre fora um homem de muita fé e ele foi a
minha primeira fonte de ciência do amor de Deus.
Voltando a
mim, meu pai sempre diz que parece que já eu nasci com fé e minha mãe, mesmo neutra
nessa história toda, sempre me diz que eu sempre tive e tenho muito fé e que
essa é uma das minhas características que ela mais admira em mim. Eu não sei ao
certo explicar precisamente, como a minha fé cresceu em mim, mas só posso dizer
com toda a propriedade, que sem ela eu não sou nada e talvez não teria chegado
onde cheguei ou talvez até não sobrevivido por tudo que passei.
Fé para
mim nunca foi algo de crer, de acreditar. Fé para mim é certeza. Eu nunca
acreditei no Amor do Pai-Eterno. Eu sei e sempre soube, dentro de meu coração e
na raiz de minha existência, que Ele existe, que é real e que está entre nós,
velando por nós, torcendo por nós, abençoando a todos nós.
Mas a vida
não é um mar de rosas do Éden, então minha vida desde meu nascimento até há
pouco tempo atrás foi convergindo para um ponto crítico de muita tristeza,
sofrimento e dor, muita dor física e emocional. Os problemas familiares,
materiais e até individuais foram crescendo, ganhando força a ponto de me fazer
crer que a razão de toda essa infelicidade era eu.
Por anos,
eu não via valor algum em mim apesar das pessoas sempre me falarem
espontaneamente das minhas qualidades. Eu agradecia de bom grado o carinho de
todas elas, mas não acreditava, pois eu me olhava no espelho e não via nada.
Até chegar um ponto que eu não me olhava no espelho, e me recusava até a ver
minha própria sombra.
O curioso é que mesmo com toda essa tristeza
que trazia dentro de mim, eu não mostrava isso para as pessoas (tirando meu pai
e minha mãe que viviam comigo). Por amar demais meus amigos, eu não queria
importuná-los com meus problemas e sempre busquei ajudar mais do que ser
ajudada. Por isso sempre fui muito sozinha nesse sentido, era e é até hoje
muito eu e Deus.
E mais curioso ainda é que mesmo estando
perturbada por todo esse sofrimento e crenças na minha insignificância, eu
conseguia ver nitidamente o quanto Deus me ajudava e me abençoava ainda mais a
cada dia. Isso me gerava sentimentos de gratidão, claro, mas eu ficava ainda
mais indignada, pois eu sabia que não merecia tudo aquilo.
Eu rezava com todas as forças de minha alma,
sem conseguir falar direito no meio de tantas lágrimas, que era para o Pai, que
para mim sempre fora o Senhor do Impossível, ir ajudar outra pessoa. E como se
não bastasse isso, ainda dentro da “minha lógica de reaproveitamento” que Ele
pegasse minha alma botasse num grão de areia, ou pó cósmico e desse meu corpo
pra uma alma melhor habitá-lo. Além disso, eu rezava para meu Anjo da guarda,
não perder tempo comigo, pois eu era um caso perdido, e que tinha gente que
estava precisando mais e merecendo mais do que eu toda aquela ajuda, paciência
e amor.
E assim se passaram os anos de minha vida, com
dias ruins, outros péssimos e outros mais tranquilos. E com o passar desses
dias, eu olhava para o Céu e dizia: “deve ter alguém aí em cima que deve gostar
muito de mim, porque olha...”. Mas apesar de tudo, o vazio que eu sentia, era
na realidade o vazio gerado pela minha sede de Deus. Nem nos meus piores dias,
eu nunca cheguei a culpar Deus, ou reclamar dele, pois sabia que Ele é o Bom e
o Bem. Então eu não o associava as coisas ruins da vida. E ao contrário, se eu
listasse os meus pedidos mais feitos em minhas preces, o que ganha em disparada
é: “Senhor não me desampare”.
Eu busquei Deus de todos os jeitos que pude, e
em todos os lugares que eu conseguia enxergar: no budismo, nos protestantes,
nos centros espíritas... Mas nenhum deles me satisfazia, ou me dava aquilo que
eu buscava. Não desistindo de minha busca, continuei minha procura sozinha
mesmo, orando do jeito que sabia, indo à missa quando podia, e acima de tudo,
refletindo e tentando ouvir Deus e sentir a Sua presença.
Até que por vontade de Deus, eu vim parar no
Rio de Janeiro. Ah! Fato muito importante, nada em minha vida foi planejado, as
coisas foram acontecendo e me pegando de surpresa em todas elas, hoje sei que
era Deus me levando para onde a Sua graça alcançava. Por mais que me perdesse
na trilha, Ele não me deixava sair do caminho.
Conheci o Shalom através de uma querida amiga,
a Sarah. Ela me falou da comunidade, e me apresentou mais da Igreja Católica,
de sites catequistas e etc, e um belo dia resolvi ir ao um grupo de oração para
iniciantes nos sábados. Gostei muito do que me foi apresentado, das coisas que
foram ditas. Mas o que mais me chamou atenção, foi a alegria que as pessoas
passavam.
Um mês após a minha ida ao grupo de oração, a
Sarah e também estava sendo divulgados em outros lugares, tinha me falado do
Seminário de Vida no Espírito Santo. Resolvi ir. Estava começando a sentir que
finalmente estava ficando mais próxima de achar aquilo que ia matar a minha
sede e que dessa vez seria diferente, seria de verdade. E não deu outra.
No primeiro dia, eu estava gostando muito do
que estava ouvindo. Mas confesso que até então estava encarando tudo
didaticamente, não que eu não precisasse disso, pois eu realmente preciso de um
bê-á-bá do catolicismo. Eu comecei a entender mais algumas coisas, descobrindo
alguns conceitos, aprendendo um pouco da História, porém eu só tinha sido
tocada na parte racional, estava começando saciar a minha sede de conhecimento
racional/intelectual. Saí de lá muito feliz, pois havia aprendido bastante.
No segundo dia, eu cheguei achando que seria
tão didático como primeiro. Mas me enganei, o segundo dia foi para ser sentido
e não ouvido. Nunca tinha ouvido falar de quase nada que vim ouvido até aqui, e
muito menos de Repouso no Espírito Santo. Essa parte foi o ápice do seminário
para mim. Eu não repousei, mas eu fiz uma reflexão sobre toda a minha vida e
sobre a constância de Deus em toda ela. E meu coração foi se transbordando de
uma gratidão tamanha, que por não caber nele começou a vazar pelos meus olhos.
E sem dúvida, foram as melhores lágrimas que já derramei.
Eu vi, naquele breve tempo, todos os momentos
em que eu poderia ter caído em tentação, poderia ter me perdido completamente,
ter ido aos braços das drogas, da promiscuidade e até da morte, e graças aos
Céus passei longe de todas as armadilhas.
Não encontro palavras para descrever a benção
que foi e que é saber que Deus cuidou de mim esse tempo todo, mesmo sem eu
saber. O melhor que consigo dizer, é que o Pai é como nosso coração que está
ali batendo, irrigando nosso corpo, nos fazendo vivos e que muitas vezes não o
sentimos pulsar. Às vezes, com as descargas de adrenalina, sentimos o ritmo
dele mais rápido, mas nem por isso precisamos disso para lembrar ou saber que o
coração está ali nos dando vida.
E além do mais, fiquei grata não só a Deus, mas
a mim por ser quem sou. Vi que sempre fui como um Girassol Amarelo, que vai
rodando para acompanhar a luz do Sol. Que mesmo sem enxergar, sabe de onde vem
a luz que precisa, e a segue sem cessar. Sempre busquei o Amor e mesmo sem
saber onde o encontrar, eu sabia aonde ele não estaria. Lembrei de cada oração
que fiz, do dia em que eu me dei a minha primeira Bíblia com o meu próprio salário,
lembrei quando pus o sentido da vida em prática e amei o próximo, lembrei dos
momentos em que mesmo tristes eu soube agradecer.

O seminário foi a limpeza na retina que eu
precisava para ver com mais clareza. E hoje minha alma anda Luz.
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