LERberdade
A
formação básica de qualquer ser humano está intrinsecamente ligada à leitura
dos signos cotidianos. Muito além das interpretações de texto, o ato de ler
fundamenta as visões de mundo que caracterizam os indivíduos dentro dos seus
contextos socioculturais. Para a contemporaneidade, não basta dominar a
denotação de palavras, mas sim as articulações das ideias.
Desde os primórdios, a humanidade
reconhece a necessidade da utilização de códigos para facilitar a comunicação e
a organização das comunidades sociais. Com a sucessão dos tempos, as palavras
tornaram-se palco para a construção da literatura e a consolidação das
hierarquias, pois o poder do conhecimento ajudou ainda mais a elite a dominar,
oprimir e explorar as classes inferiores durante muito tempo.
Mas, mesmo com a posterior
disseminação da educação para todos, ainda há aqueles que se prendem no campo
literal sem transcender para as verdadeiras revoluções que a leitura
proporciona, o que acaba gerando uma carência lamentável de seres criticamente pensantes.
É preciso não só saber ler, mas usufruir das portas que a leitura abre por si
só.
No Brasil, por exemplo, além dos
analfabetos funcionais (que compõe 10% da população), tem-se também os
analfabetos de Mário Quintana – aquele que sabem ler e não lêem. Diante desse
panorama social, é perceptível que a maioria dos brasileiros fica banhada pela
ignorância e se contenta inconscientemente com o humor comprado dos EUA, com a
leitura paupérrima das revistas de “fofoca” e com o jornalismo
“esportivo-futebolesco”.
Cada vez mais, tem-se, no país,
cidadãos que não se reconhecem como tais, ou seja, há uma perpetuidade de
“secos Fabianos” no cenário nacional. A precariedade da informação bloqueia a
capacidade de refletir das pessoas e piora o quadro de disparidade social, já
que a garantia da cidadania é através do conhecimento. E como não há outro
jeito, senão a leitura, as transformações sociais só ocorrem quando as visões
de mundo da massa forem lapidadas por meio da mesma.
Refletir sobre si mesmo,
exprimir ao máximo o que está subentendido são pré-requisitos essenciais à
elaboração de homens com a consciência dos seus direitos e deveres. Ao garantir
o direito de saber ler e escrever, e também o acesso às inúmeras formas de
leitura, garante-se a cada um a descoberta do encontro aristotélico, a
libertação do seu Freud sonhador, a revelação do seu real tamanho pelos versos
de Drummond e a comprovação de que suas ideias correspondem aos fatos já que a
sua alma não é pequena e tudo então passa a valer a pena. Portanto, cai por
terra a ideologia de “ler para saber”, atualmente a filosofia é “ler para ser”.

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