A casa dos sonhos

O pensamento capitalista conduziu a humanidade a um ciclo artificial, porém eficiente, de interdependência entre o “querer” e o necessário. Nota-se, em uma escala global, uma epidemia nas massas populares que padronizou os sentimentos, as aquisições, os desejos e, inclusive, a referência de felicidade. Ou seja, o mundo assiste a uma carência profunda das “alegrias-nossas-de-cada-dia”, em que as pessoas acabam por seguir uma vertente que as afasta ainda mais do “felizes para sempre”.
    
Cada vez mais difundido, o “Carpe Diem” (casado com a cultura do imediato) conseguiu proliferar nos indivíduos a visão de que o que importa é o resultado e não o processo. Com isso, as sociedades do mundo inteiro vivem em uma constante ansiedade atrás do torpor das conquistas materiais em prol da ilusão de que a felicidade tornou-se tão tangível, a ponto de ser comprada no mar de apelos do consumo. Hoje em dia, até o sorriso deixou de ser o símbolo dessa alegria plena, pois a autossatisfação está estabelecida no contemplar idéias efêmeras sem antes possuir relações saudáveis que garantam a visão na dádiva da corrida e não os olhos focados apenas no troféu.
   

Contudo, o paradoxo desse sistema manipulador se encontra justamente na impossibilidade de ser feliz a seu modo e ser feliz aos moldes da sociedade. As pessoas tornaram-se escravas do modelo econômico atual que por sua vez também depende da infelicidade alheia para sobreviver. A balança do “ter-e-ser” perdeu o lugar para a da “aquisição-e-exibição” de acordo com a expectativa do outro e não a individual. A tão cobiçada “casa dos sonhos” já nem mais é sonhada ou planejada, “graças” ao advento midiático, ela já vem pronta e com a dose certa das alegrias em que cada cômodo poderá proporcionar. Nada mais é idealizado com a paixão de antes, quase tudo já vem pré-fabricado. E até os pequenos sonhos que se tem perdem para o brilho triste do “status”.


       
A visão do horizonte não deve ser o alvo para o sucesso, mas sim o modelo do caminho para o mesmo. A crescente procura por fórmulas do “êxito maior” revela o quão deficiente de definições pontuais a sociedade está com relação ao lado subjetivo da vida. É preciso parar para refletir que o erro não está na felicidade, mas sim nos olhos de quem a vê.

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