Sêneca e sua Oração ao Tempo

E quem disse que não tem Filosofia no Andorinha?! Pois bem meus passarinhos e minhas passarinhas! O livro da vez é o tratado do Sêneca “Sobre a brevidade da vida”. Eu comprei o livro em 2012, mas só o li agora, e acho que foi o melhor momento para isso, pois ultimamente ando muito mais atenta à forma como gasto e aproveito meu tempo.


Imagem do Busto de Sêneca

Para quem como eu só tinha ouvido mesmo falar do Sêneca, ele foi um filósofo romano já na era “depois de Cristo” e que foi o principal mentor de Nero (sim, aquele imperador maluco de Roma que botou fogo na cidade). Altamente instruído e com uma educação de causar inveja, Sêneca teve uma morte horrível, pois Nero mandou que ele suicidasse.

Esse tratado, na realidade é uma compilação das cartas que ele escreveu a seu amigo também filósofo Paulino, e está dividido em capítulos. A linguagem, ao contrário do que esperamos dos filósofos, é simples, direta e sem muito rodeios, apesar de ter referencias que se não fossem as observações do rodapé, passariam a maior parte delas por mim batido.

Já gostaria de começar o post logo com um trecho do primeiro capítulo em que Sêneca já naquela época em 50, 60 d.C. já observava ser um problema nos homens e na forma como eles viviam e vivem até os dias atuais as suas vidas:
Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiça no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita, nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai.”



Gente, depois disso é um tapa na cara da sociedade né?! E na nossa também! Quanta gente fala por aí, que não esta vivendo, mas só existindo?! Isso é até frase de facebook/instagram. Sêneca fala ainda que se fizéssemos um cálculo de quanto tempo realmente vivemos, e fizemos as coisas só por nós, e não pelo trabalho, para mantermos certos status sociais, quantas bajulações feitas e recebidas, quanto ócio, quanta preocupação demasiada com a vaidade nos tiraram o que temos de mais valor: o tempo?! Quantos anos que vivemos tão somente para nós sobrariam dessa conta?!

E então o Sêneca critica piamente os “ocupados” todos aqueles que andavam e andam “ocupados” com suas vidinhas, com seus empregos/funções sociais, com o próprio umbigo, com os prazeres exagerados da carne, com as festas sem fim e etc.

Assim, Sêneca coloca que quem sabe viver realmente é o sábio que estende sua vida “por muito tempo, ele não tem os mesmos limites que os outros, é o único que não depende das leis do gênero humano, todos os séculos como a um deus. Algo se perde no passado? Ele recupera com a memória. Está no agora? Ele desfruta. Há de vir com o futuro? Ele antecede. A união de todos os tempos em um só momento faz com que sua vida seja longa.”

E o curioso, é que antes de ler esse livro, eu assisti ao filme “Jupiter Ascending” e que fala um pouco sobre isso, sobre como nós da raça humana não damos o devido valor a aquilo que vale a pena lutar que é o tempo. Não é só a questão de eternizarmos nossa existência, mas de sabermos aproveita-la e não desperdica-la. Sabermos usar o tempo que temos com algo que seja a nossa paixão, com as pessoas que nos acrescentam, com as atividades que só nos levam a crescermos.




O que acontece hoje em dia é uma automatização da vida. Fazemos o que convencionalmente temos que fazer: estudar, trabalhar, cuidar da saúde, socializar no “happy hour” de quarta e ir pro sambinha da sexta, reunião com a família para ver o futebol de domingo e etc. E assim que nossos dias são longos, mas as semanas e os anos se tornam curtos, pois com rotinas tão inchadas, não tem como pararmos pra pensar em buscarmos novos caminhos, desenvolvermos nossas múltiplas potencialidades, porque estamos tão cansados que deixamos para depois, nas expectativa de que o sufoco de hoje será o alivio de amanhã.

Claro que temos batalhar na vida para termos conforto, mas também não precisamos nos permitir escravizar por desejos inúteis e que não nos proporcionam a real felicidade. Nossos dias não precisam ser iguais, cabe a nós aprendermos a olhar para o mundo e para vida com olhos diferentes, sentirmos com mais intensidade e vivermos sempre com mais liberdade.

Como disse muito bem Denis Diderot: “Este tratado é lindo: recomendo sua leitura a todos os homens”. E assim, eu também o faço!
Não poderia deixar de falar sobre o tempo sem citar uma das mais belas canções da nossa MPB:





Beijos meus amores! Bons voos!

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