Supremacy


V de Vigança (HQ) – Allan Moore & David Lloyd

“Boa Noite, Londres! São 21 horas e esta é a Voz do Destino, transmitindo em ondas médias de 275 e 285 MHZ.” Quem alguma vez não se recorda desta abertura de noticiário?! Ainda mais por ter sido no ano passado em que as manifestações eclodiram em todas as grandes metrópoles de nosso país, o que fez popularizar ainda mais a obra desses ilustres Allan Moore e David Lloyd, assim como também da produção cinematográfica de 2005 do diretor James McTeigue e dos irmãos Wachowski.
Para quem nunca ouviu falar nem do filme e nem da série em quadrinhos, a história tem como um dos pilares principais de discussão o medo moderno do totalitarismo e dá ênfase na questão de como a justiça, a liberdade e a autonomia individual se contrastam da teoria para a prática. E perante a tamanha opressão e fascismo, a obra mostra de maneira arrebatadora o poder que uma idéia tem, ou como uma crença dá forças ao ser humano para não se conformar com sua realidade e ir atrás do que considera ideal custe o que custar. Para inclusive expurgar de sua realidade a alienação social.
Esse livro eu li em aproximadamente 3 horas, mas mesmo sendo quadrinhos, foi uma das leituras mais difíceis que já fiz. Não é tipo de leitura em que você pode “desligar o cérebro” e dar uma viajada e retomar a atenção a história que você continuará entendendo o enredo. Várias vezes eu tive que ler novamente algumas partes para entender em que contexto ou que rumo a trama tinha entrado e por mais vezes ainda tive que retomar a leitura de certas partes porque os diálogos são tão incrivelmente profundos que uma lida só não bastava.
É uma história bem complexa, e a “troca de cenas” digamos assim chega até a ser abrupta, porque você se envolve tanto com o que está acontecendo em dado momento do enredo que quando você espera que ele vai continuar, a história já parte para outro contexto de personagens e outros fatos que também estão acontecendo ao mesmo tempo e vão tecendo uma colcha de perspectivas riquíssima.
Mas não pensem que a estrutura do texto é uma bagunça! Ao contrário, a história é dividida em três tomos, e cada tomo tem suas divisões por capítulo, o que de certa forma dá um dinamismo frenético a narrativa. E quanto ao conteúdo, bem, ele te prende do começo ao fim!

Uma das coisas que mais me chamou atenção é a quantidade absurda de diversas referências a mitologias, religiões, a correntes filosóficas, à História, peças de teatro e literatura que são feitas nos cenários, nos diálogos, nas vestimentas e etc. E tudo isso graças ao personagem V, que é muito teatral, então ele fala trechos de peças de teatro, de discursos políticos e até da Bíblia com uma naturalidade e coerência sublime.
E para mim, a melhor parte (não se preocupem, pois não darei spoiler) é quando o V começa a discutir com a estátua da Justiça. Pois, nesse trecho mostra o poder de nossos valores, e além disso você passa até a compreender melhor como se dá o relacionamento de pessoas que se casam com suas ideias e ideais. E o V considera a Justiça como uma pessoa, ou melhor como a mulher que roubou o seu coração quando ele ainda era menino. E então o desabafo que ele faz é de um homem traído, que viu que a Justiça o trocou pelo sistema militarizado, ou como ele mesmo chama de “os homens de uniforme”. E o que traz ainda mais beleza é que todos os discursos e falas são altamente poetizados e líricos.
Além disso a forma como os autores mostraram as diversas relações humanas, seja de marido e mulher, amigos, chefe e funcionários, cidadãos e governos e até do homem com a máquina Destino elevou o nível da subjetividade da história, porque mesmo que cada núcleo do enredo pareça estar isolado dos demais, a trama inteira deve ser vista como um todo, pois as denúncias abrangem todo o panorama sociopolítico e nenhum fator psicossocial fica ileso de críticas ferrenhas e reveladoras.
Para quem viu filme, eu acho válido ler a obra original porque apesar do filme ter cumprido bem o seu papel, eles fizeram algumas alterações que achei que não deveriam ter sido feitas e não explicou bem algumas partes ou as deixou implícitas e subentendidas demais.
Recomendo essa obra a todos porque ela é acima de tudo um grande pretexto à reflexão. E para comprovar meu argumento, segue abaixo um trecho da história contada em um rolo de papel higiênico que a Evey acha enquanto estava no cárcere:
Mas minha integridade era mais importante. Isso é egoísmo? Pode não ser muito, mas é tudo o que nos resta aqui. São os nossos últimos centímetros, mas, neles, nós somos livres.”
Informações importantes que não posso esquecer de passar: o apêndice do livro é MARAVILHOSO! Explica todas as referências usadas, o processo de criação e publicação da obra, quem são os autores, e mais duas histórias curtas do V que não entraram na publicação final.
Outros detalhes importantes, para quem (assim como eu) ama Mitologia Nórdica, o capítulo final se chama Valhalla e o funeral do V é inspirado no funeral Viking. E continuando a brincadeira, o título desta resenha veio da música “Supremacy” do álbum “The 2nd Law” da banda britânica de rock Muse, que tem como tema principal críticas a governos tirânicos, políticas e outras coisitas más (literalmente).

Pois bem minha gente, “Lembrai, lembrai do cinco de Novembro”.



Seguem os Links:

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Letra da música Supremacy:


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