Betina (ou que aprendi com ela) – parte I
Betina é uma cachorrinha toda
pretinha que entrou na minha vida quando eu menos esperava no dia 20 de Julho
de 2018.
Estava eu, no meio de um evento do trabalho, naquele
corre-corre de staff, quando no meio do meu caminho a encontro assustada,
perdida e andando em círculos (alguém mais se identifica?).
A chamei e ela veio. Fiz carinho na cabeça, e ela deitou no chão.
Percebi que estava muito bem cuidada, e como onde trabalho não tem cachorros,
por ser uma região só de empresas, pensei: “ou tá perdida, ou a abandonaram”. A
certeza era que eu não ia deixar ela sozinha e na rua, a dúvida era aonde eu ia
deixa-la até o horário do almoço, pois não podia simplesmente sair do trabalho
naquele momento. Por sorte, encontrei outros colegas de trabalho que se
sensibilizaram na hora e de prontidão me ajudaram a leva-la para escritório até
eu poder levá-la para minha casa.
Passou o primeiro final de semana e nada do “dono” aparecer.
Já na segunda, eu sabia que ela tinha sido abandonada e apesar de não ter
certeza, havia a suspeita de ela estar grávida. Descobrimos que a suspeita era
verdade e daí me acometeu uma profunda tristeza. Não só por uma cachorrinha
extremamente dócil e amorosa ter sido abandonada nesse frio que está o inverno
de São Paulo por estar gerando outras vidas, como também por todas as outras
mães, mulheres que também sofrem pelo mesmo motivo.
Pensei em quantas meninas e mulheres (especialmente no norte
e nordeste) que são humilhadas, maltratadas... Pensei em todas que mesmo sendo
vítimas de abuso sexual são vistas e tratadas como responsáveis pelo crime que
lhes foi cometido. Pense em Martin Luther King, quando o “silêncio dos bons”, a
empatia sem atitude permite deixar a “Deus dará” essas vidas. Pensei, senti e
chorei por todas elas e nós.
Não simpatizo muito com a ideia do aborto. Mulheres, feministas,
médicos e cia, que me desculpem, mas eu sou a favor da vida. Sou a favor porque
apesar de tudo ainda acredito nela. Obvio que cada um sabe “aonde seu calo
aperta”, mas com tudo que vivi e aprendi, em salas de aulas e às vezes por
simplesmente observar o céu, a vida é preciosa demais para ser tirada por
motivos “não naturais”, digamos assim.
Quando me deparo com a imensidão do universo, que mesmo
grande para nós, o quão pequeno e indiferente é o nosso pequeno “ponto azul”
como dizia Carl Sagan, e que em meio de uma galáxia inteira só nele existe vida,
e ao mesmo tempo o quão difícil é esse processo de reprodução não só na espécie
humana, e o quão incrível é toda essa transformação da matéria e energia, me
soa como cruel e mesquinho demais “tomar o papel de Deus” para decidir quem e
até quando algo ou alguém vive.
Independente do que diz a ciência sobre bem estar da Terra, equilíbrio
ambiental, sobrevivência das espécies e superpolução, eu acredito que a
Natureza é sábia e sabe o que faz e permite acontecer. Eu acredito que se as
vidas continuam sendo geradas mesmo com tanta gente, é porque essas vidas têm
como sobreviver. Seleção natural não foi algo que já passou. É algo que ainda
está acontecendo aqui e agora.
E eu percebi acima de tudo que a vida não termina com a
morte. A vida termina quando ela se
torna uma inconveniência.
Por isso, mesmo sem (na época) saber como, prometi a Betina
que não importava o que acontecesse, eu iria celebrar a vida e a vinda dos
filhotes dela. Mesmo não ficando com nenhum deles e nem mesmo com ela. Eu não
deixaria meu amor, respeito e compaixão diminuírem por não ter os recursos para
cuidar das crias e da criadora.
Me alegra dessa historia estar caminhando para um desfecho
feliz. Ela provou que realmente o nome que escolheu fez total sentido: Betina –
do hebraico: promessa de Deus. E se tem uma coisa que Deus (pelo menos na
crença judaico-cristã) mais promete aos homens é a Vida. Seja através dos
filhos, da colheita ou da salvação, nada como essa graça e dom de viver para
colorir a pura e fria existência.

Comentários
Postar um comentário